A Iluminação

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Depois de ter escorraçado Mãra, o Bodhisatta entregou-se à meditação. Todas as misérias do mundo, os males originados pelas más ações e os sofrimentos daí nascidos, desfilaram diante da sua mente, e ele pensou:


«Certamente que se os seres vivos vissem os resultados de todas as suas más ações, afastar-se-iam delas com repugnância. Mas o egoísmo cega-os, e agarram-se aos seus desejos mais desprezíveis.
«Desejam o prazer para si próprios e causam dor aos outros; quando a morte destrói a sua individualidade e não encontram paz; a sede pela existência mantém-se e o seu egoísmo reaparece em novos nascimentos.
«Assim continuam a mover-se na espiral e não encontram saída do inferno da sua própria criação. E quão vazios são os seus desejos, quão vás são as suas tentativas! Ocas como um plátano e sem conteúdo como uma bolha.
«O mundo é fértil em maldade e em tristeza, porque está cheio de luxúria. Os homens andam desencaminhados porque pensam que o engano é melhor do que a verdade. Em vez de seguir a verdade, seguem o erro, que no início é agradável à vista mas que no final causa ansiedade, tribulações e miséria.»


E o Bodhisatta começou a expor o Dharma. O Dharma é a verdade. O Dharma é a lei sagrada. O Dharma é a religião. Só o Dharma nos pode libertar do erro, da injustiça e da tristeza.
Ponderando sobre a origem do nascimento e da morte, o Iluminado reconheceu que a ignorância era a raiz de todos os males; e estas são as ligações no desenvolvimento da vida, chamados os doze nidãnas:
No começo só existe a existência cega e sem conhecimento; e neste mar de ignorância há remoinhos formativos e organizativos. Dos remoinhos formativos e organizativos surge a consciência ou os sentimentos.
Os sentimentos dão origem aos organismos que existem como seres individuais. Estes organismos desenvolvem os seis campos, que são os cinco sentidos e a mente. Os seis campos entram em contacto com as coisas. O contacto dá origem à sensação. A sensação cria a sede do sr individualizado. A sede do ser cria uma atração para as coisas.A atração produz o crscimento e a continuidade do egoísmo. O egoísmo continua através dos constantes nascimentos. Os constantes nascimentos do egoísmo são a causa do sofrimento, do envelhecimento, da doença e da morte. Eles originam o lamento, a ansiedade e o desespero.
A causa de todas as tristezas vem desde o princípio; está escondida na ignorância de onde a vida emerge. Afasta a ignorância e destruirás os apetites que emergem da ignorância; destrói estes apetites e apagarás a perceção errada que se levanta deles. Elimina a perceção errada e será o fim dos erros nos seres individualizados. Elimina os erros nos seres individualizados e as ilusões dos seis campos desaparecerão. Destrói as ilusões e o contacto com as coisas cessará de originar conceitos deturpados. Exclui os conceitos deturpados e afastarás a sede. Destrói a sede e ficarás livre de todas as atrações mórbidas. Remove as atrações e destruirás o egoísmo do ego. Se o egoísmo do ego for destruído estarás acima do nascimento, da velhice, da doença e da morte, e fugirás a todo o sofrimento.
O Iluminado viu as quatro nobres verdades que mostram o caminho que leva ao Nirvãna e à extinção do ego:
A primeira nobre verdade é a existência da tristeza.
A segunda nobre verdade é a causa do sofrimento.
A terceira nobre verdade é a cessação da tristeza.
A quarta nobre verdade é a senda óctupla que leva à cessação da tristeza.
Este é o Dharma. Esta é a verdade. Esta é a religião. E o Iluminado proferiu este verso:

« Através de muitos nascimentos busquei em vão
O Construtor desta Casa de Dor.
Agora, Construtor, vejo-te claramente!
Esta é a minha última morada.
O ápice e os pilares partiram-se,
O meu coração está em paz. Toda a luxúria terminará.»

Há o ego e há a verdade. Onde está o ego, não está a verdade. Onde está a verdade, o ego não está. O ego é o erro efémero do Samsãra; é a separação individual e o egoísmo que origina a inveja e o ódio. O ego é a ânsia do prazer e a luxúria atrás da vaidade. A verdade é o entendimento correto das coisas; é o permanente e o perpétuo, o real das coisas, a felicidade da retidão.
A existência do ego é uma ilusão, e não há erro neste mundo, não há vício, não há mal, a não ser aquele que advém da afirmação do ego.
Alcançar a verdade só é possível quando o ego é reconhecido como uma ilusão. A retidão só pode ser praticada quando libertamos a nossa mente das paixões do egoísmo. A paz perfeita só pode existir onde toda a vaidade tenha desaparecido.
Abençoado é aquele que entendeu o Dharma. Abençoado é aquele que não faz mal aos seus semelhantes. Abençoado é aquele que supera o erro e se liberta da paixão. Aquele que atingiu a mais alta felicidade, conquistou todo o egoísmo e a vaidade. Ele tornou-se Buddha, o Perfeito, o Abençoado, o Bem-aventurado.

In O Evangelho de Buda, de Paul Carus

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