No dia em que Buda defendeu a guerra

Não se iludam aqueles que pensam encontrar aqui a justificação para a sua guerra pessoal.

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The truth us that other systems of geometry are possible, yet after all, these other systems are not spaces but other methods of space measurements. There is one space only, though we may conceive of many different manifolds, which are contrivances or ideal constructions invented for the purpose of determining space.

Paul Carus

vida

«Simha, eu declaro a aniquilação do egoísmo, da luxúria, da má vontade, da ilusão. Porém, eu não declaro a aniquilação da paciência, do amor, da caridade e da verdade.

Simha, eu julgo injustas as ações desprezíveis, sejam elas feitas pela ação, pela palavra ou pelo pensamento; mas eu julgo virtuosa e louvável a retidão.»

E Simha disse: «Uma dúvida persiste no meu espírito com respeito à doutrina do Abençoado. Consentirá o Abençoado em afastar a nuvem para que eu possa entender o Dharma como o Abençoado ensina?»

Quando o Tathãgata deu o seu consentimento, Simha continuou: « Sou um soldado, Ó Abençoado, e fui nomeado pelo rei para cumprir as suas leis e para executar as suas guerras. Permite o Tathãgata, que ensina a bondade sem limites e a compaixão para com todos os seus sofredores, a punição do criminoso? E mais, declara o Tathãgata que é errado ir para a guerra para proteger as nossas casas, as nossas mulheres, os nossos filhos e a nossa propriedade? Ensina o Tathãgata a doutrina da total auto-entrega, de tal modo que eu deva sofrer às mãos do malvado fazendo o que lhe bem aprouver e ser-lhe submisso, ameaçando tirar-me o que é meu? Defende o Tathãgata que se deveria proibir toda a discussão, incluindo a guerra, tal como é empreendida para a defesa de uma causa justa?»

Buddha replicou: «Aquele que merece ser punido deve ser punido, e aquele que merece ser louvado deve ser louvado. Mas ao mesmo tempo, ele ensina a não fazer mal aos seres vivos e a estar cheio de amor e bondade. Estas interdições não são contraditórias, porque quem quer que deva ser punido pelos crimes que cometeu, suporta o seu mal não pela má vontade do juiz, mas por causa das suas próprias más ações. Os seus próprios atos trouxeram-lhe os males que o executor da lei inflinge.

Quando um magistrado pune, que ele não acolha em seu coração o ódio, mesmo que seja um assassino condenado à morte, pois deverá considerar que isto é fruto das suas próprias ações. Tão logo entenda que o castigo irá purificar a sua alma, ele não mais lamentará o seu destino mas alegrar-se-á com ele.»

E o Abençoado continuou: «O Tathãgata ensina que toda a guerra pela qual o homem tenta matar o seu irmão é lamentável, mas ele não ensina que aqueles que vão para a guerra por uma causa justa, depois de terem esgotado todas as possibilidades para preservar a paz, sejam censuráveis. Deve ser censurado aquele que é a causa da guerra.

«O Tathãgata ensina um total capitulação do ego, mas ele não ensina a capitulação de nada aos poderes daquilo que é mau, sejam homens, deuses ou elementos da natureza. Deve haver luta, pois toda a vida é uma luta de alguma forma. Mas aquele que luta deveria escolher não lutar em função do ego contra a verdade e a retidão.

«Aquele que luta a favor do ego, para que ele próprio fique maior, mais poderoso, rico e famoso, não terá recompensa, mas aquele que luta pela retidão e pela verdade, terá uma grande recompensa, pois até mesmo as suas derrotas serão uma vitória.

«O ego não é um cântaro apropriado para receber qualquer grande sucesso; o ego é pequeno e frágil e os seus conteúdos serão brevemente derramados para benefício doe outros, e talvez para sua maldição.

«A verdade, porém, é suficientemente grande para receber os anseios e aspirações de todos os egos, e quando todos se desfizerem como bolas de sabão, os seus conteúdos serão preservados e na verdade eles levarão uma vida duradoira.

«Aquele que vai para a guerra, Ó Simha, mesmo pensando que é por uma causa justa, deve estar preparado para morrer pelas mãos dos seus inimigos, pois esse é o destino dos guerreiros; e se o destino lhe bate à porta não tem razão para se queixar.

«mas aquele que é vitorioso deveria lembrar-se da instabilidade das coisas terrenas. O seu sucesso pode ser grande, mas seja ele sempre grande até a roda da fortuna girar outra vez e levá-lo ao pó.

«Porém, se ele for moderado e, afastando todo o ódio do seu coração, levantar o seu adversário derrubado dizendo-lhe: ”Anda, vamos fazer as pazes e sejamos irmãos”, ele ganhará uma vitória que não é transitória, pois os seus frutos perdurarão para sempre.

«Grande é um general de sucesso, Ó Simha, mas aquele que conquista o ego é o maior vencedor.

«A doutrina da conquista do ego, Ó Simha, não é ensinada para destruir a alma dos homens, mas para a preservar. Aquele que conquistou o ego é mais apto para a vida, para ter sucesso e para ganhar vitórias do que aquele que é escravo do ego.

«Aquele cujo espírito está livre da ilusão do ego será firme e não cairá na batalha da vida. (…)

in Evangelho de Buda, de Paul Carus.

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