Reencarnação

Flor

Buda negava a reencarnação como a entendíamos. Dizia que cada estado da matéria é um estado diferente, apesar de cíclico. A madeira é madeira, apesar de o fogo a transformar em cinzas. As cinzas não são madeira nem a madeira cinzas, apesar de termos a ilusão de que uma e outra coisa podem ser a mesma. Não são, a sua essência é a mesma, mas não são a mesma coisa, são entidades distintas. Da mesma forma, quando dizemos que reencarnamos, iludimo-nos a nós próprios se pensamos que é uma nova oportunidade para conquistarmos o carma que nos tem perseguido. Se assim fosse o carma não faria sentido pois teríamos sempre o reinício. Pensamos com a mente que a natureza nos irá dar oportunidades atrás de oportunidades até nos tornarmos bons, iluminados e não mais voltarmos a nascer, ficando no paraíso para sempre. Mais ilusão em cima de ilusão. Uma mentira não se torna verdade por ser contada muitas vezes ou por a maioria acreditar nela. Só a verdade é superior à ilusão e, como Buda disse, o ego não nos permite ver a verdade da Verdade. Só nos mostra a verdade da mentira.

Imaginemos um campo onde nasce uma Flor. Ela nasce, vive e morre. As suas sementes irão ser espalhadas pelo vento, outras pelos animais que delas se alimentam. Algumas cairão próximo do sítio onde a Primeira Flor viveu. De uma só flor quantas flores nascem? Serão elas a reencarnação da Primeira Flor por serem iguais na forma? Ou terão cada uma delas a sua individualidade, o seu caminho a percorrer, ignorando por completo que a primeira flor foi uma grande flor no mundo das flores, pois permitiu a expansão da espécie? Irão as novas flores, todas elas filhas da primeira, erguer templos, criar ritos e rituais em homenagem à primeira flor? Irão elas pensar que a Grande Flor é Suprema, Soberana, Espiritual e ligada ao Uno por ter sido a primeira? Irão elas pensar que poderão ser a reencarnação dessa primeira flor? Que lindo, diz a flor para si própria. Eu não sou eu, eu sou a Grande Flor reencarnada. É a mim que devem adorar porque sou filha da Grande Flor, sou a sua imagem na Terra. Depois, só quem essa flor pretendia poderia dizer-se realmente filho da Grande Flor. Todas as outras flores passaram a ser ervas daninhas e tinham de desaparecer para não contaminarem as flores puras. Passaram a existir as flores boas e as flores más. Daí em diante é o que sabemos. Novos cultos surgiram, novas flores reivindicaram serem elas as legitimas filhas da Grande Flor e a plebe das flores, aquelas que não eram más nem boas, foram seguindo umas e outras. Algumas, que até conseguiam ver coisas boas nas más e coisas más nas boas, eram considerados lunáticas, possuídas pelo demónio das flores. Aquela que tinha vindo da Grande Flor mas que se tinha deixado ludibriar pelo ego, pelo Eu Sou.

ego

Continuando na reencarnação. Podemos nós identificar a nossa alma nesta ou naquela vida passada, entrando em comparações físicas, memórias mentais ou coisas semelhantes? Podemos, mas é ilusão. Basta olharmos para a nossa árvore genealógica e irmos até à geração dos nossos bisavós. São 8, no total. 8 distintas famílias que “acabam” em nós, no nosso corpo e na nossa mente. O espírito não é o ego, e é aqui que entra a nossa ilusão. Comparamos o Eu Sou ao Tudo É. O Tudo É não cabe no Eu Sou, mas todos os Eu Sou cabem no Tudo É. E ainda sobra espaço para mais verdade que desconhecemos, porque as verdades só se mostram aos Homens quando eles estão preparados para elas. Somos cada pedacinho dos nossos 8 bisavós, cada pedacinho dos nossos 4 avós e cada pedacinho dos nossos 2 pais. Mais tarde, fundimo-nos também nos pedacinhos dos nossos filhos, netos, bisnetos. Não há limites se o nosso amor for puro. Quando é, conseguimos fundir-nos nos amigos, nos inimigos e até nos que nos são indiferentes. Aí somos Uno e podemos ver que Tudo é Uno. Todos nós temos este vislumbre, pelo menos uma vez na vida. Mais não seja quando estamos às portas da morte. São as tais experiências que consideramos sobrenaturais. Não são. Aqui dou toda a razão à Cabala. Os animais são mais espirituais do que nós por estarem mais ligados à natureza? Não. Ilusão do nosso ego que nos quer tornar superiores ao mundo físico em que existimos. Os animais têm é outros sentidos apurados que nós deixámos de ter com o desenvolvimento social e físico da humanidade. O ego deixou de ter a sua função ideal para ter uma função errada, subvertida da real função que é ligar-nos ao plano físico. Permitimos que ele se tornasse dono e senhor do mundo físico, depois aguentamos as consequências e não adianta chorar lágrimas de crocodilo. O Todo não se compadece com essas tristezas. Só se compadece com ação, com movimento, com atitude… Mas baseada na verdade e não na mentira do ego. Sobrenatural é algo tão simples como a memória. Não é fantástico que o ser humano consiga fechar os olhos e estar em Marte? Não é fantástico que consigamos recordar os nossos antepassados ou imaginar os nossos futuros descendentes? Isso é sobrenatural e não lhe damos valor nenhum. Achamos que sobrenatural é levitar, comunicar telepaticamente ou teletransportarmo-nos. Tudo isso são coisas que o ser humano acabará, mais cedo ou mais tarde, por contornar através da tecnologia. Até a leitura de pensamentos irá ser uma realidade futura, mas através da tecnologia e não das nossas capacidades naturais. É esta a nossa ilusão. Não somos capazes de então criamos máquinas que nos permitam ser. Adensamos ainda mais a ilusão do ego. Mas um dia iremos ver isso porque a Verdade está acima e revelar-se-á.

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