Budismo e os dias sagrados

O Buda era contra rituais supérfluos, mas para que os seus ensinamentos não caíssem no esquecimento, ele sabia que era preciso passar da teoria para a prática. Na generalidade, aproximamo-nos de grupos que envolvam movimento, que nos tragam crescimento, seja físico ou espiritual. Seja pelo bem ou pelo mal, quando nos associamos é por egoísmo, primeiro, depois aprendemos outros benefícios e talvez venhamos a ter mais prazer no dar do que no receber. Mas mesmo o dar pode tornar-se uma obsessão e algo que, à partida, parece bom, é mau por ser em excesso.

Assim de repente lembro-me da história da velhinha que estava apenas a parar para descansar, por casualidade com uma passadeira em frente, e passou um escoteiro por ela. Ávido por fazer a boa ação do dia, conforme a catequese e os escoteiros lhe haviam ensinado, nem perguntou, pegou no braço da senhora e disse: “Venha, eu ajudo-a.”; A sra disse: “Mas não filho, est…”; E o rapaz: “Não insista, é por bem, eu quero ajudá-la e a sra precisa de ajuda para atravessar.”;  Retorquiu a sra: “Mas filho, eu estava à esp…”; Já com impaciência o rapaz pegou no braço da sra com vigor: “Vamos, os carros e este sr simpático do autocarro já pararam.”. Vendo que não valia a pena gastar ainda mais energias com o rapaz, a senhora deixou-se ir. “Pronto, agora fico descansado. Já imaginou se eu tivesse passado por si, a sra por um triste acaso do destino tivesse sido atropelada! Como é que EU me iria sentir? Já imaginou? Muito obrigado por me ter deixado ajudá-la.”; A sra, calmamente, respondeu: “Filho, eu estava a 10 metros da paragem do autocarro. Estava apenas a descansar um pouco as velhas pernas que a vida ainda me permite, mas estava a vislumbrar o meu autocarro ao fundo a chegar, porque a vida cansou-me as pernas mas não me cansou a inteligência e, mesmo vendo mal, consigo reconhecer o meu autocarro de há 30 anos a milhas! Entretanto, o menino passou afogueado, como se fosse um bombeiro a caminho de um incêndio ou um médico a caminho do paciente para o salvar. Não lhe pedi nada menino. Apenas estava no meu mundo sem incomodar ninguém. Mal ou bem estava em pé, mas o menino achou por bem que a sua força juvenil era mais meritória da boa ação do que da não-ação. Pela ação, criou carma entre nós. Escusado, porque não havia antes. E agora menino, se eu não tivesse noção da lei da causa e da consequência, teria reagido e não agido. Teria respondido irrefletidamente. Se por ventura fosse um dia mau, poderia inclusive responder-lhe com aspereza. Qual seria a sua reação? Manteria a sua boa vontade sem me ofender ou sem me criticar? Afinal, não lhe pedi nada. Como iria receber uma má vontade seria o espelho da sua alma verdadeira, não do seu ego, mascarado de escoteiro ou de bom samaritano. O verdadeiro desafio estaria nesse momento, em que alguém com uma natureza diferente da minha o provocasse, o levasse ao extremo e o menino não mostrasse capacidade para responder ao desafio. Nesse momento, se virasse costas à discussão por medo, caso o adversário se mostrasse mais forte fisicamente, mostraria toda a sua covardia. Se se impusesse com mestria, o conflito seria resolvido com mestria e sem violência. Se o seu medo de sofrer fosse superior ao seu medo de dar, de realizar a boa ação sem querer receber, o que provaria que a mesma era feita desprovida de interesse, não fugiria e enfrentava a situação.

Ação e não reação. Zen é vida, zen é conflito, zen é paz. Zen é tudo o que nos rodeia. Por isso, para atingirmos a Iluminação, basta-nos perceber que o zen não é morrer para a vida, escondendo-nos da sociedade e criando pequenas comunidades autónomas mas que não se abrem para o mundo de alguma forma e, quando se abrem, é porque estão a precisar de apoio financeiro e vêem nessa abertura uma fonte de financiamento.

Cada mestre de reiki, acupunctura, chi-kung, kung-fu, lian-gong, reflexologia, fitoterapia chinesa ou a terapia alimentar chinesa, entre outras, deveria abrir-se ao mundo que o rodeia da mesma forma que o cristianismo se abriu e se difundiu. Não o lado da violência, da força, mas o lado da insistência. Buda disse que os que não tivessem capacidade para perceberem os ensinamentos deveriam decorá-los, o que já não era mau, pois assim acabariam por fazer o bem sem reparar, sem estar mecanizado, inconscientemente, da mesma forma que assim agiriam para o mal, se o mesmo fosse alimentado de forma sistemática e mecanizada.

Os budistas são medrosos. Os terapeutas orientais são medrosos. Têm medo da crítica. Têm medo de serem desmascarados se forem farsas. Só por isso não insistem nas vantagens das medicinas orientais. Façam como os cientistas ocidentais. Prestem atenção ao que Taisen Deshimaru, um Grande Mestre, fez. Atentem ao seu legado. Atentem à sua obra em vida. Não só foi o primeiro oriental a difundir o zazen e o zen budismo na Europa. Não entrem em divisões de seitas budistas porque isso é o que nós, ocidentais gostamos. Seja Soto ou Rinzai, o zen é todo igual, só muda a máscara do ensinamento de acordo com a audiência. Já assim fazia o último Buda conhecido. Deshimaru sujeitou-se a testes científicos. Provou as vantagens físicas do zazen. Por a+b, França recebeu-o de braços abertos. Outros tentaram antes sem sucesso.

O zen e as medicinas tradicionais orientais têm de se abrir para o ocidente. Não pode haver medo da crítica ou da especulação. Se não estão preparados para a crítica, não são verdadeiros budistas. Sigam outro caminho. Estão no errado. São calmos, pacíficos, meigos, compassivos e têm muita compaixão até para com as formigas que vivem. Mas não são zen. Não são budistas. Não representam a vida de Buda, não mostram a força e o poder dos seus Ensinamentos. São menos do que os cristãos que, puramente, desembainharam as espadas para derrubar os islâmicos. E são menos porque esses, ao menos, serviram uma causa. Justa ou não, na sua mente era justa. Estavam a combater infiéis que não os deixavam seguir os seus credos e rituais. Não lutou já o budismo contra tantos e tantos ataques de vários quadrantes?  Dalai Lama está no seu palácio? Então, venha o primeiro que se ache santo levantar o dedo e dizer: sou santo. Até lá, tentemos resolver os problemas atuais. E nisso, o budismo, o zen, as medicinas tradicionais orientais são fundamentais para equilibrar o mundo. Muito mais importantes do que qualquer ensinamento filosófico. São ação, movimento. O ocidente só acredita no que vê. O oriente só acredita no que não vê. Falta-nos o meio termo, a sociedade do futuro, Oriente e Ocidente abraçados culturalmente, espiritualmente e tecnologicamente. Abraçar estas três palavras parece vago, mas são o Todo da sociedade. Uma não vive sem as outras em equilíbrio. Pode haver uma sociedade sem fronteiras, mas não deve haver uma sociedade sem diversidade cultural. Pode haver uma sociedade com muitas religiões e credos, mas não pode haver uma sociedade em que credos e religiões sejam fruto de desentendimentos e soluções violentas para os mesmos. Somos inteligentes ou somos ratos? Sabemos meter um satélite no Espaço mas não sabemos resolver diferendos religiosos? Mas que raio de civilização esta? Somos o quê, afinal?

Idade Média? Medievais? Atrasados? Porcos? Não tomavam banho? Não rapavam os pêlos? Comiam com as mãos? A casa de banho era na rua? SIM. Somos muito mais evoluídos. Muito. Muitíssimo. Muitérrimo. Temos elevadores, não nos cansamos. Temos carros. Não nos cansamos nem cansamos animais. Se calhar eles preferiam que os usássemos como meio de transporte do que os carros que também os estão a matar a eles. Mas enfim! Temos tudo o que de bem-estar a tecnologia pode proporcionar. Então? Que nos falta. Só falta as máquinas substituírem-nos completamente. Produzirem tudo por nós. E depois? Será que finalmente vamos ser livres? Será que todos os conflitos terminam? Ou ainda vamos ter conflitos apesar de não termos necessidades físicas por suprimir? Ah, pois é, faltam as necessidades mais importantes. As mesmas que nos têm mantido nas trevas do desenvolvimento psíquico durante milhares de anos. Que treta. Bolas. Já não dá. E agora? E agora não deixamos o bebé chorar e vamos mudar-lhe a fralda. Vamos mostrar-lhe o mundo como realmente é, sem máscaras, ilusões ou criações da mente, mentirosa como tudo. Vamos ver a Verdade que é mesmo bela. Mas vamos vê-la a todo o instante, POR ISSO É QUE ZEN É TUDO, é lavar a loiça, é lavar os dentes, fazer a cama, trabalhar honestamente, viver em comunidade e não refugiar-se no celibato, é meditar, é correr, fazer ginástica, musculação, o que quiserem, desde que com equilíbrio. Pode ser o zen como pode ser a cabala, o catolicismo, o islamismo, o hinduísmo, o raio que nos parta a todos, mas que seja em paz e na partilha dos conhecimentos. Quando um mestre diz: vamos à guerra com armas. Então é um falso-mestre. 

Acordem mestres, abram os vossos espíritos e deixem que o Ocidente se dilua em vocês. Deixem de pensar que têm conhecimentos superiores aos outros conhecimentos. Não têm. São complementares. E só se complementarão plenamente quando se diluírem um no outro. Só serão úteis ao Todo quando isso acontecer. Quando eu for a um médico por uma dor de cabeça, ele deve ser um mestre em medicina oriental e medicina ocidental. E deve ser uma pessoa, não uma máquina, como a medicina ocidental quer. Acordem antes que seja tarde demais. Ajudem a civilização a prosperar porque senão ela “mata-vos” como já matou tantos e tantos Conhecimentos e Saberes antigos.

Em baixo deixo mais um trecho do livro O Evangelho de Buda, de Paul Carus. É incrível como tenho este livro desde 2005, já o li e reli dezenas de vezes e só agora consigo compreender 0,00001 por cento dos ensinamentos. Cada um que se abre na minha alma parece o Sol a nascer pela manhã ou a Lua bela e brilhante de dia, como se de um planeta se tratasse. A Verdade é mesmo bela na forma, no sabor, no som, na experiência e no cheiro. Quando a mente é ultrapassada por ela, o nosso verdadeiro ser emerge, mesmo que por momentos, e tem um vislumbre do Todo, Uno no seu esplendor. São aqueles momentos em que Buda, em meditação, mostrava este mundo e todos os outros mundos a quem consigo meditava. A nossa mente tenta imaginar o tufo luminoso a sair do seu terceiro olho, mas é a mente mentirosa, a  mesma que depois nos diz: mas eu nunca vi nada disso, portanto é mentira. Raios, não é mentira, só a nossa ignorância não alcança a ideia do impossível. O Oculto é apenas isso. Aquilo que ainda não foi mostrado. Perseguir o oculto é bom, mas também é bom termos os pés assente na Terra ao mesmo tempo. Por isso o zazen tem os joelhos no chão (ligação à Terra) e a cabeça bem erguida, suportada pela coluna direita, sem esforço em demasia para a corda da viola não partir, mas tentando alcançar o céu (divino, espiritual). O equilíbrio que deriva da meditação deve ser esse e não a ligação com o Oculto. Ocultos estão os ovos da Páscoa, no meio da Floresta, para os bhikkhus procurarem e entenderem os Ensinamentos ocidentais.

Isto é budismo:

 

Uposatha e Pãtimokkha

Quando Seniya Bimbisãra, o rei de Magadha, envelheceu, retirou-se do mundo para seguir a vida religiosa. Reparou que havia seitas Brahmânicas em Rãjagaha que mantinham certos dias como sagrados, e que as pessoas se reuniam nas suas casas e ouviam os sermões.
Sobre a necessidade de se manterem dias regulares de retiro das atividades do mundo e para práticas religiosas, o rei foi ter com o Abençoado e disse: «Os Parivrãjaka, que pertencem à escola Titthiya, prosperam e ganham seguidores porque mantêm o oitavo e também o décimo quarto ou décimo quinto dia de cada quinzena. Não seria igualmente aconselhável aos veneráveis irmãos do Sangha reunirem-se nos dias indicados para esse propósito?»
E o Abençoado ordenou que os bhikkhus se reunissem no oitavo dia, e igualmente no décimo quarto e décimo quinto dias de cada quinzena, e que dedicassem estes dias a práticas religiosas.
Um bhikkhu exclusivamente designado deveria dirigir a congregação e expor o Dharma. Deveria exortar as pessoas a andarem no caminho óctuplo da retidão; deveria confortá-las das vicissitudes da vida e alegrá-las com a ventura do fruto das boas ações. Assim os irmãos deveriam manter o Uposatha.
Os bhikkhus, em obediência à regra ditada pelo Abençoado, passaram a reunir-se no vihãra no dia escolhido, e as pessoas foram ouvir o Dharma, mas sentiram-se muito desiludidas, porque os bhikkhus permaneceram silenciosos e não proferiram sermões.
Quando o Abençoado ouviu isto, ordenou aos bhikkhus para recitarem o Pãtimokkha, uma cerimónia para aliviar a consciência; e instruiu-os para confessarem os seus pecados a fim de receberem a absolvição da ordem.
Se houvesse algum pecado, deveria ser confessado pelo bhikkhu que dele se lembrasse e que desejasse purificar-se. Porque um pecado, quando confessado, ilumina.
O Abençoado disse: »O Pãtimokkha deve ser recitado recitado desta maneira:
«Que um competente e venerável bhikkhu faça a seguinte proclamação ao Sangha: “Que o Sangha me oiça! Hoje é dia Upsosatha, o oitavo, ou o décimo quarto ou décimo quinto dia da quinzena. Se o Sangha está preparado, que o Sangha assuma o serviço do Uposatha e recite o Pãtimokkha. Eu recitarei o Pãtimokkha.”
«E os bhikkhus responderão: “Todos nós ouvimos bem e estamos concentrados nele.”
«Então, o bhikkhu celebrante continuará: “Que aquele que cometeu uma ofensa a confesse; se não houver ofensa, que todos se calem; estando calados entenderei que os irmãos estão isentos de ofensas.
«Assim como uma pessoa a quem se faz uma pergunta responde, também se, diante de uma assembleia como esta, uma pergunta é solenemente proferida três vezes, uma resposta é esperada: se um bhikkhu, depois de três vezes proferida, não confessa uma ofensa de que se lembre, ele comete uma falta intencional.
«Ora, reverendos irmãos, uma falta intencional foi declarada um impedimento pelo Abençoado. Portanto, se uma ofensa foi cometida por um bhikkhu que se lembre dela e que deseje ficar puro, a ofensa deve ser confessada pelo bhikkhu, e quando confessada será abordada adequadamente.»

Só faz sentido se for lida a continuação, que está nesta página.

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