O Cisma no Sangha

Enquanto o Abençoado morou em Kosambí, um certo bhikkhu foi acusado de ter cometido uma ofensa e, como se recusou a admiti-la, a irmandade pronunciou-se contra ele ordenando a sua expulsão.
Mas, esse bhikkhu era um erudito. Conhecia o Dharma, tinha estudado as regras da ordem, e era sábio, instruído, inteligente, modesto, consciencioso e pronto a submeter-se à disciplina. E ele foi ter com os companheiros e amigos entre os bhikkhus dizendo: «Isto não é ofensa amigos; não é razão para uma sentença de expulsão. Eu não sou culpado. O veredito não está conforme as regras e é inválido. Portanto considero-me ainda um membro da ordem. Que os veneráveis irmãos me auxiliem a manter o meu direito.»
Aqueles que se puseram ao lado do irmão expulso foram ter com os bhikkhus que pronunciaram a sentença dizendo: «Isto não é ofensa»: enquanto os bhikkhus que pronunciaram a sentença replicaram: «Isto é uma ofensa.»
Começaram assim discussões e quezílias, e o Sangha ficou dividido em duas partes, que se insultavam e caluniavam mutuamente.
Todos estes acontecimentos foram relatados ao Abençoado.
Então o Abençoado foi ao lugar onde os bhikkhus proferiram a sentença de expulsão, e disse-lhes: «Não penseis, ó bhikkhus, que tendes de pronunciar a expulsão contra um bhikkhu, sejam quais forem os factos ocorridos, simplesmente dizendo: «Achamos que seja assim, portanto estamos satisfeitos por proceder desta forma contra o nosso irmão. Que esses bhikkhus que pronunciam frivolamente uma sentença contra um irmão que conhece o Dharma e as regras da ordem, que é instruído, sábio, inteligente, modesto, consciencioso e pronto a submeter-se à disciplina, fiquem atemorizados por causarem desuniões. Eles não devem pronunciar uma sentença de expulsão contra um irmão somente porque ele se recusa a ver a sua ofensa.»
Então o Abençoado levantou-se e foi ter com a irmandade que estava ao lado do irmão expulso e disse: «Não penseis, ó bhikkhus, que por teres ofendido não necessiteis de vos reconciliar, pensando: ‘Nós não ofendemos’. Quando um bhikkhu comete uma ofensa que considera não-ofensa enquanto a irmandade o considera culpado, deveria pensar: ‘Estes irmãos conhecem o Dharma e a regra da ordem; são instruídos, sábios, inteligentes, modestos, conscienciosos, e prontos a submeterem-se à disciplina; é impossível que eles por minha causa ajam de forma egoísta ou maliciosa, ou iludidos ou com medo.’ Que ele fique atemorizado por causar divisões, em vez de declarar que a sua ofensa foi cometida pelos seus irmãos.’
Ambas as facções continuaram a manter o Uposatha e a executar os atos oficiais independentemente um do outro; e quando as suas obrigações se relacionavam com o Abençoado, ele decretava que continuar com o Uposatha e com a execução dos atos oficiais era justo, irrepreensível e válido para ambas as facções. Porque ele disse: «Os bhikkhus que tomam partido do irmão expulso constituem uma congregação diferente daquela que pronunciou a sentença. há irmãos vulneráveis em ambas as facções. Como eles não se entendem, que mantenham o Uposatha e realizem os rituais separadamente.»
E o Abençoado repreendeu os bhikkhus em conflito dizendo-lhes:
«Estrondosa é a voz que sai dos homens do mundo; mas como eles ser censurados quando as divisões se levantam igualmente no Sangha? O ódio não é apaziguado naqueles que pensam: ‘Ele insultou-me, ele enganou-me, ele injuriou-me.’
«Porque não é pelo ódio que o ódio é apaziguado. O ódio é apaziguado pelo não-ódio. Esta é a lei eterna.
«há alguns que não conhecem a necessidade do auto-controlo; se são conflituosos devemos desculpar-lhes tal comportamento. Mas aqueles que têm mais conhecimento deveriam aprender a viverem em concórdia.
«Se um homem encontra um amigo sábio que vive retamente e de acordo com o seu caráter, pode viver com ele, superar todos os perigos, ser feliz e vigilante.
«Mas se ele não encontra um amigo que viva retamente e de acordo com o seu caráter, que vá sozinho, como um rei que deixa o seu império e as preocupações da governação para trás, para levar uma vida retirada como um elefante solitário na floresta.
«Com os loucos não há amizade. Em vez de viver com homens egoístas, frívolos, conflituosos e obstinados, que um homem caminhe sozinho.»
E o Abençoado pensou para si: «Não é tarefa fácil instruir estes tolos obstinados e presunçosos.» E levantou-se do seu lugar e foi-se embora.

in Evangelho de Buda, de Paul Carus

 

 

 

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